sábado, 1 de janeiro de 2011

O Pestinha das Caxinas

E foram 12 contos, isto em 1994, que a Associação Desportiva Cultural e Recreativa das Caxinas teve de pagar a um agricultor de Bagunte para cobrir os estragos feitos na sua horta por Fábio Coentrão e amigos. O grupo de pequenos diabretes fugiu do torneio em que participava e foi entreter-se a estragar tomates e alfaces. "Ele era o líder da quadrilha", recorda Fernando Caseira, treinador na referida associação, onde o craque benfiquista começou, com tenra idade, a dar uns chutos na bola. Este episódio, passado numa freguesia de Vila do Conde, aconteceu tinha Fábio Coentrão não mais de seis anos e, como balanço, ficaram os 12 contos a pagar ao lavrador pelo prejuízo e um valente puxão de orelhas ao miúdo mais talentoso da equipa. "Ia muitas vezes buscá-lo a casa, porque ele era o que jogava melhor e precisava dele. Mas também era o mais rebelde. Reclamava sempre muito, por tudo e por nada", lembra Fernando Caseira com um sorriso estampado na cara.


O que hoje faz rir - afinal, quem está em causa é um dos maiores craques do futebol português e europeu da actualidade -, noutros tempos deixou familiares, treinadores, professores, funcionários, padres e catequistas à beira de um ataque de nervos. Fábio Coentrão era uma autêntica peste, fosse na escola, em casa, nas ruas do bairro piscatório das Caxinas ou no Rio Ave: comportava-se mal e era a teimosia em pessoa. Algo que parece ter-lhe vindo tão natural como o jeito para o futebol.

"Em bebé, a gente dizia-lhe para não mexer numa coisa e era logo o primeiro sítio onde ele ia mexer", conta Fernanda Serrão, a tia e madrinha do jogador, transformada em espécie de segunda mãe quando a verdadeira, Josefina, emigrou para França, era Fábio já adolescente. "Tanto nos treinos como nos jogos, fazia as coisas como pensava que estava certo e não como o treinador dizia", acrescenta a familiar, orgulhosa do que vai dizendo. Fernanda Serrão acha que o afilhado só ganhou por ter este feitio: deu-lhe a garra que apresenta hoje dentro de campo e a determinação para chegar onde chegou, ou seja, ao topo.
Pese a personalidade forte, a aparência de Fábio não fazia adivinhar tanta energia e malandrice. António Barros, actualmente coordenador das escolas do Rio Ave, lembra-se do quanto o filho do pescador Bernardino Coentrão "era enfezadinho". "Até parecia que passava fome. Os calções caíam-lhe do rabo.

Mas mandava em todos e passava a vida a fazer asneiras", relata com a mesma dose de divertimento dos outros entrevistados por O JOGO. Este mesmo treinador levou o lateral-esquerdo à selecção distrital do Porto, primeiro nos sub-12, depois nos sub-18. E conta que, num estágio em Lamego, o pirralho partiu os vidros de um pavilhão desportivo e, cheio de lata, culpou depois Yazalde, seu colega e actual jogador do Rio Ave, pelo distúrbio. "Estão a ver como é o Yazalde. Ele só se ria, não dizia nada", recorda António Barros.

Nesta reportagem nas Caxinas, em Vila do Conde, foi possível constatar que, na mesma medida da rebeldia, Fábio Coentrão sempre teve a humildade e a simpatia. Não há ninguém que o acuse de ser vedeta, snobe ou arrogante. De todo. Ainda hoje cumprimenta toda a gente da mesma maneira. "Há jogadores que, para dar um 'boa-tarde', é preciso uma requisição. O meu sobrinho tanto fala com o mais pobre como com o mais rico", declara a tia Fernanda. No Verão passado, foi ver o jogador na areia da praia das Caxinas a jogar com a malta da terra - até um golo de pontapé de bicicleta fez - poucos dias depois de ter regressado do Mundial da África do Sul.


Mais adulto e sereno


Fábio Coentrão tem dito várias vezes que está mais adulto. Que percebeu que se tinha de dedicar mais. Que já não joga só com os pés. Agora também usa a cabeça, palavras do próprio jogador. O tempo que passou emprestado, nomeadamente a má experiência no Saragoça - foi acusado de andar na má vida, foi pouco utilizado e saiu pela porta pequena -, fê-lo crescer e amadurecer como homem. Em 2010, ter sido pai de uma menina, Vitória, foi um passo importante na sua vida. "Está muito mais calmo, conversador e dado à família", afirma a mãe, Josefina. O internacional português deu recentemente uma entrevista, com a mulher, a uma revista social onde disse sentir-se agora uma "pessoa mais feliz": "Acabo o meu trabalho e só tenho vontade de ir para casa. Uma filha é tudo na vida. (...) Gosto de a encher de beijinhos."

Fonte: O Jogo

Sem comentários:

Enviar um comentário